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quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Textos trabalhados na II oficina da Prova Brasil

Bloco de atividades

A MORTE DA TARTARUGA
MILLÔR FERNANDES

O menininho foi ao quintal e voltou chorando: a tartaruga tinha morrido. A mãe foi ao quintal com ele, mexeu na tartaruga com um pau (tinha nojo daquele bicho) e constatou que a tartaruga tinha morrido mesmo. Diante da confirmação da mãe, o garoto pôs-se a chorar ainda com mais força. A mãe a princípio ficou penalizada, mas logo começou a ficar aborrecida com o choro do menino. "Cuidado, senão você acorda o seu pai". Mas o menino não se conformava. Pegou a tartaruga no colo e pôs-se a acariciar-lhe o casco duro. A mãe disse que comprava outra, mas ele respondeu que não queria, queria aquela, viva! A mãe lhe prometeu um carrinho, um velocípede, lhe prometera uma surra, mas o pobre menino parecia estar mesmo profundamente abalado com a morte do seu animalzinho de estimação. Afinal, com tanto choro, o pai acordou lá dentro, e veio, estremunhado, ver de que se tratava, O menino mostrou-lhe a tartaruga morta. A mãe disse: "Está aí assim há meia hora, chorando que nem maluco. Não sei mais o que faço. Já lhe prometi tudo, mas ele continua berrando desse jeito". O pai examinou a situação e propôs: "Olha, Henriquinho. Se a tartaruga está morta não adianta mesmo você chorar. Deixa ela aí e vem cá com o pai". O garoto depôs cuidadosamente a tartaruga junto do tanque e seguiu o pai, pela mão. O pai sentou-se na poltrona, botou o garoto no colo e disse: "Eu sei que você sente muito a morte da tartaruguinha. Eu também gostava muito dela. Mas nós vamos fazer pra ela um grande funeral". O menininho parou imediatamente de chorar. "Que é funeral?" O pai lhe explicou que era um enterro. "Olha, nós vamos à rua, compramos uma caixa bem bonita, bastante balas, bombons, doces e voltamos para casa. Depois botamos a tartaruga na caixa em cima da mesa da cozinha e rodeamos de velinhas de Aniversário. Aí convidamos os meninos da vizinhança, acendemos as velinhas, cantamos o Happy-Birth-Day-To-You pra tartaruguinha morta e você assopra as velas. Depois pegamos a caixa, abrimos um buraco no fundo do quintal, enterramos a tartaruguinha e botamos uma pedra em cima com o nome dela e o dia em que ela morreu. Isso é que é funeral! Vamos fazer isso?" O garotinho estava com outra cara. "Vamos papai, vamos! A tartaruguinha vai ficar contente lá no céu, não vai? Olha, Eu vou apanhar ela." Saiu correndo. Enquanto o pai se vestia, ouviu um grito no quintal. "Papai, papai, vem cá ela está viva!" O pai correu pro quintal e constatou que era verdade. A tartaruga estava andando de novo normalmente. "Que bom, heim!"- disse "Ela está viva! Não vamos ter que fazer o funeral!" "Vamos sim, papai"- disse o menino ansioso, pegando uma pedra bem grande "Eu mato ela".
MORAL: O IMPORTANTE NÃO É A MORTE, É O QUE ELA NOS TIRA.
FERNANDES, Millôr "Morte da Tartaruguinha", In: Fábulas Fabulosas, 9ª ed., Rio de Janeiro. Nórdica, 1985, p. 100-101.
1- No trecho em destaque “Pegou a tartaruga no colo e pôs-se a acariciar-lhe o casco duro”. A palavra sublinhada refere-se a: D - 2

(A) mãe
(B) tartaruga
(C) pai
(D) casco
2- No texto acima as aspas foram utilizadas para: D 14

(A) demarcar a fala do narrador
(B) demarcar somente a fala do menino
(C) demarcar a fala dos personagens
(D) demarcar somente a fala da mãe

3- No trecho “O garoto depôs cuidadosamente a tartaruga junto do tanque e seguiu o pai, pela mão”. A palavra destacada indica: D 12

(A) tempo
(B) lugar
(C) modo
(D) dúvida

4- A mãe mexeu na tartaruga com um pau porque D - 1
(A) tinha medo de tartaruga
(B) tinha nojo daquele animal
(C) não queria sujar as mãos
(D) não gostava da tartaruga




Ipê amarelo
por: Rosmari A. M. Lazarini




Ipê Amarelo é o nome popular de algumas espécies de árvores da região Sul e Sudeste do Brasil, pertencentes à família botânica Bignoniaceae, gênero Tabebuia, que também compreende espécies com flores de cor branca, roxa, rosa ou lilás. Em outras regiões brasileiras, os ipês recebem outras denominações.
O nome científico Tabebuia, de origem tupi-guarani, significa pau ou madeira que flutua. É denominada, pelos índios, de caxeta, árvore que nasce na zona litorânea do Brasil, cuja madeira íntegra (inatacável) resiste ao apodrecimento. O nome ipê, de origem Tupi, significa árvore de casca grossa.
Sendo uma espécie caducifólia, o período da queda das folhas coincide com a floração que se inicia no final do inverno. Quanto mais frio e seco for o inverno, maior será a intensidade da florada do ipê amarelo.
1- A expressão “árvore de casca grossa” explica D 1
(A) o nome científico do ipê.
(B) a denominação dada pelos índios ao ipê.
(C) o significado em Tupi do nome ipê.
(D) o período de queda das folhas.

2- O texto trata principalmente D6
(A) dos índios tupi-guarani
(B) da zona litorânea do Brasil
(C) do inverno brasileiro
(D) de uma árvore



UM DOENTE MUITO ESTRANHO
Quino


Quino, Toda Mafalda. São Paulo, Martins Fontes, 1991.

1) A cura do doente que está na casa da Mafalda depende: D - 4

(A) da natureza
(B) dos bichos
(C) do homem
(D) do tempo





Leia:



Texto-1
O Pato
Vinicius de Moraes
Lá vem o pato
Pata aqui, pata acolá
Lá vem o pato
Para ver o que é que há

O pato pateta
Pintou o caneco
Surrou a galinha
Bateu no marreco
Pulou do poleiro
No pé do cavalo
Levou um coice
Criou um galo
Comeu um pedaço
De genipapo
Ficou engasgado
Com dor no papo
Caiu no poço
Quebrou a tigela
Tantas fez o moço
Que foi pra panela


Texto-2
Molde
Pato
Tecido: feltro, algodão, etc. retalho de cor diferente para o bico
Metragem: 30 cm.
Cabeça: corte duas vezes.
1- Bico, parte superior: corte duas vezes. Um lado é costurado à cabeça e o outro à parte inferior do bico.
3- Bico, parte inferior: corte duas vezes. Costure um lado à parte superior do bico e outro à cabeça.

Idalina Ladeira e Sarah Caldas, op. Cit

1- Ao compararmos os dois textos notamos que são diferentes porque D 15

(A) o primeiro texto é um poema e o segundo é uma receita
(B) o primeiro texto é um poema e o segundo é uma bula de remédio
(C) o primeiro texto pertence ao mundo real e o segundo ao mundo imaginário
(D) o primeiro texto é um poema e o segundo é um texto instrucional

VÔO DE PAPEL (Francisco Simões)

Solta a tua alegria
Feliz e vadia no ar,
Faz flutuar no espaço,
Rompendo o mormaço
Com teu braço gigante
De linha ou barbante
Tua asa, teu céu,
Teu vôo de papel.

Rege com as mãos o bailado
Aéreo dançado,
Teus sonhos cruzando
Com sonhos rivais,
Buscando tais quais
A mesma vitória
E ter uma estória
Para depois contar.

Guarda na tua alegria
Feliz e vadia, menino,
Teus sonhos bem pequeninos
Para poderes crescer e sonhar.
Nas tantas batalhas perdidas,
Nas muitas linhas partidas
Foge sempre um pouco da gente.
Estes sonhos não vão voltar
1 – O texto acima refere-se a que brinquedo?D4
(A) Avião
(B) Cata vento
(C) Pipa
(D) Foguete


Leia a anedotinha do bichinho da maçã e responda as questões.

Texto do caipira

O caipira andava ao longo da estrada seguido de dez cavalos. Nisso, veio um automóvel e o motorista gritou para o caipira.

_ Você tem dez. Mas eu tenho duzentos e cinqüenta cavalos! _ E _ vruuum! _ Saiu em disparada!

_ O caipira continuou seu passo. E lá na frente estava o carro virado dentro do rio, ao lado da ponte. Ai o caipira falou pro motorista.

_Oi, cumpadre! Dando água pra tropa, é?

(Trecho retirado do livro “As últimas anedotinhas do bichinho da maçã”, de Ziraldo)

1) A conversa acontece entre: D 1

(A) o caipira e os cavalos
(B) os cavalos e o motorista
(C) o caipira e o motorista
(D) o carro e o caipira

3) Qual trecho demonstra humor? D 13

(A) “ O caipira andava ao longo da estrada...”
(B) “_Oi, cumpadre! Dando água pra tropa, é?”
(C) “ O caipira continuou seu passo.”
(D) “ Ai o caipira falou pro motorista.”

4) O que a expressão “ vruuum!” representa no texto lido? D3
(A) o som do carro
(B) a voz do caipira
(C) o som do cavalo
(D) a voz do motorista

6) Leia o anúncio de um jornal e responda a questão:

ANÚNCIO: MOTO TWISTER ANO 2008
COR: VERMELHA
VALOR: R$ 11.900,00
URGENTE. TRATAR: 2222- 11 11



O texto acima tem a finalidade de D 9

(A) contar uma história
(B) dar um aviso
(C) dar uma notícia
(D) vender um produto

Leia o texto.

























1- No texto a passagem que expressa a opinião da personagem relativa ao modo como os vendedores tratam as crianças quando estão desacompanhadas de seus pais é D 11

(A) eu nunca me liguei nessa coisa de direito do consumidor.
(B) logo você vai ser grande e poder fazer compras sozinha.
(C) vou ficar ligada pra não dançar.
(D) “... é um absurdo, mas dá pra entender. Vendedor tem que vender, não ganha, e se não ganhar, não come!...”

2- No texto, a expressão “...vou ficar ligada pra não dançar” dá a entender que: D 3

(A) Beatriz vai ficar atenta.
(B) Beatriz vai ficar plugada numa tomada.
(C) Beatriz não quer dançar.
(D) Beatriz está triste.





A gralha vaidosa





Júpiter deu a notícia de que pretendia escolher um rei para os pássaros e marcou uma data para que todos eles comparecessem diante de seu trono. O mais bonito seria declarado rei.
Querendo arrumar-se o melhor possível, os pássaros foram tomar banho e alisar as penas às margens de um arroio. A gralha também estava lá no meio dos outros, só que tinha certeza de que nunca ia ser a escolhida, porque suas penas eram muito feias.
"Vamos ter que dar um jeito", pensou ela.
Depois que os outros pássaros foram embora, muitas penas ficaram caídas pelo chão; a gralha recolheu as mais bonitas e prendeu em volta do corpo. O resultado foi deslumbrante: nenhum pássaro era mais vistoso que ela. Quando o dia marcado chegou, os pássaros se reuniram diante do trono de Júpiter; Júpiter examinou todo mundo e escolheu a gralha para rei. Já ia fazer a declaração oficial quando todos os outros pássaros avançaram para o futuro rei e arrancaram suas penas falsas uma a uma, mostrando a gralha exatamente como ela era.
Moral: Belas penas não fazem belos pássaros.


1) A gralha usou penas falsas porque D 8
(A) queria um vestido novo.
(B) achava que tinha poucas penas.
(C) queria se tornar amiga de Júpiter.
(D) desejava receber de Júpiter o título de rei dos pássaros.

2) O desfecho da história mostra que a gralha foi D 7
(A) aceita como rei dos pássaros.
(B) desmascarada pelos pássaros.
(C) expulsa por ter penas feias.
(D) vaiada pelos pássaros.






















































































A reunião geral dos ratos

Uma vez os ratos, que viviam com medo de um gato, resolveram fazer uma reunião para encontrar um jeito de acabar com aquele eterno transtorno. Muitos planos foram discutidos e abandonados. No fim um rato jovem levantou-se e deu a idéia de pendurar uma sineta no pescoço do gato; assim, sempre que o gato chegasse perto eles ouviriam a sineta e poderiam fugir correndo. Todo mundo bateu palmas: o problema estava resolvido. Vendo aquilo, um rato velho que tinha ficado o tempo todo calado levantou-se de seu canto. O rato falou que o plano era muito inteligente, que com toda certeza as preocupações deles tinham chegado ao fim. Só faltava uma coisa: quem ia pendurar a sineta no pescoço do gato?
Moral: Inventar é uma coisa, fazer é outra.


















A menina do leite
A menina não cabia em si de felicidade. Pela primeira vez iria à cidade vender o leite de sua vaquinha. Trajando o seu melhor vestido, ela partiu pela estrada com a lata de leite na cabeça.
Enquanto caminhava, o leite chacoalhava dentro da lata.
E os pensamentos faziam o mesmo dentro da sua cabeça.
"Vou vender o leite e comprar uma dúzia de ovos."
"Depois, choco os ovos e ganho uma dúzia de pintinhos."
"Quando os pintinhos crescerem, terei bonitos galos e galinhas."
"Vendo os galos e crio as frangas, que são ótimas botadeiras de ovos."
"Choco os ovos e terei mais galos e galinhas."
"Vendo tudo e compro uma cabrita e algumas porcas."
"Se cada porca me der três leitõezinhos, vendo dois, fico com um e ..."
A menina estava tão distraída que tropeçou numa pedra, perdeu o equilíbrio e levou um tombo.
Lá se foi o leite branquinho pelo chão.
E os ovos, os pintinhos, os galos, as galinhas, os cabritos, as porcas e os leitõezinhos pelos ares.
Moral: Não se deve contar com uma coisa antes de consegui-la.
Livro: Fábulas de Esopo - Scipione

A MENINA DO LEITE

Num dia primaveril,
Claro e ensolarado,
Seguia aquela menina
A caminho do mercado.

Com seu jarro na cabeça
Oferecia e sorria:
- Olha o leite! – Olha o leite!
Este era o seu dia a dia.

Falava com os animais,
Com todos que encontrava!
Do maior ao pequenino,
Ela os cumprimentava.

Caminhava tranqüilamente,
Suavemente, imitando
Quase que um passo de dança,
Alegremente pensando:

“Venderei todo esse leite,
Com o dinheiro comprarei
Cem ovos. E cem pintinhos
Logo, logo, pois, terei.”

“Os pintinhos vão crescer,
Então eu os trocarei,
No mercado, por um porco
Ao qual engordarei”.


“Quando ele ficar roliço
Então eu o trocarei
Numa vaca com bezerro,
A quem alimentarei”.

“Sendo bem alimentada,
Muito leite ela dará,
Com o qual farei muitos queijos.
E o bezerro crescerá

Forte e sadio...” – Já estou
Vendo o bichinho correr
No campo, entre as ovelhas!
Diz ela, a estremecer.

Há em seus olhos um brilho
De puro contentamento.
E a menina esquece
Do jarro, por um momento.

Entusiasmada, começa
A dar pulos de alegria,
Esquecendo-se do jarro
Que na cabeça lhe ia.

Com o movimento brusco
O jarro escorregou
E se desfez em pedaços
Quando na terra tocou,

Como os sonhos da menina.

E o leite se esparramou
Derramado no caminho.
Só chão molhado restou.

Adeus porco... adeus pintinhos...
Adeus bezerro... adeus vaca...
Lamentava-se a menina
De lágrimas, a vista opaca.

Por sonhar tanto, perdera
O que tinha garantido
Como seu, pois esquecera
O que fazia sentido.

A única coisa que tinha
Não poderia esquecer,
Porém, perdida a sonhar,
Tudo viera a perder.

Sonhar faz parte da vida,
Sem sonhos não há viver!
Porém sonhar sem deixar-se
Totalmente se envolver.

Sonhar com os pés no chão!
Com responsabilidade!
Com o cuidado devido

À nossa realidade.

Fim

(Fábula de domínio público, originária das Fábulas de Esopo) Por Rosa Regis)

Janeiro - Como Nasceram as Estrelas
Clarice Lispector

Pois é, todo mundo pensa que sempre houve no mundo estrelas pisca-pisca. Mas é erro. Antes os índios olhavam de noite para o céu escuro — e bem escuro estava esse céu. Um negror. Vou contar a história singela do nascimento das estrelas. Era uma vez, no mês de janeiro, muitos índios. E ativos: caçavam, pescavam, guerreavam. Mas nas tabas não faziam coisa alguma: deitavam-se nas redes e dormiam roncando. E a comida? Só as mulheres cuidavam do preparo dela para terem todos o que comer.
Uma vez elas notaram que faltava milho no cesto para moer. Que fizeram as valentes mulheres? O seguinte: sem medo enfurnaram-se nas matas, sob um gostoso sol amarelo. As árvores rebrilhavam verdes e embaixo delas havia sombra e água fresca. Quando saíam de debaixo das copas encontravam o calor, bebiam no reino das águas dos riachos buliçosos. Mas sempre procurando milho porque a fome era daquelas que as faziam comer folhas de árvores. Mas só encontravam espigazinhas murchas e sem graça. — Vamos voltar e trazer conosco uns curumins. (Assim chamavam os índios as crianças.) Curumim dá sorte.
E deu mesmo. Os garotos pareciam adivinhar as coisas: foram retinhos em frente e numa clareira da floresta — eis um milharal viçoso crescendo alto. As índias maravilhadas disseram: toca a colher tanta espiga. Mas os gatinhos também colheram muitas e fugiram das mães voltando à taba e pedindo à avó que lhes fizesse um bolo de milho. A avó assim fez e os curumins se encheram de bolo que logo se acabou. Só então tiveram medo das mães que reclamariam por eles comerem tanto. Podiam esconder numa caverna a avó e o papagaio porque os dois contariam tudo. Mas — e se as mães dessem falta da avó e do papagaio tagarela? Aí então chamaram os colibris para que amarrassem um cipó no topo do céu. Quando as índias voltaram ficaram assustadas vendo os filhos subindo pelo ar. Resolveram, essas mães nervosas, subir atrás dos meninos e cortar o cipó embaixo deles.
Aconteceu uma coisa que só acontece quando a gente acredita: as mães caíram no chão, transformando-se em onças. Quanto aos curumins, como já não podiam voltar para a terra, ficaram no céu até hoje, transformados em gordas estrelas brilhantes.
Mas, quanto a mim, tenho a lhes dizer que as estrelas são mais do que curumins. Estrelas são os olhos de Deus vigiando para que corra tudo bem. Para sempre.
E, como se sabe, “sempre” não acaba nunca.

LISPECTOR, Clarice. Como nasceram as estrelas: doze lendas brasileiras. Rio de Janeiro: Rocco, 2000. P. 78








Machado de Assis
(...) Assim são as páginas da vida,
como dizia meu filho quando fazia versos,
e acrescentava que as páginas vão
passando umas sobre as outras,
esquecidas apenas lidas.

"Suje-se Gordo!"



Joaquim Maria Machado de Assis, cronista, contista, dramaturgo, jornalista, poeta, novelista, romancista, crítico e ensaísta, nasceu na cidade do Rio de Janeiro em 21 de junho de 1839. Filho de um operário mestiço de negro e português, Francisco José de Assis, e de D. Maria Leopoldina Machado de Assis, aquele que viria a tornar-se o maior escritor do país e um mestre da língua, perde a mãe muito cedo e é criado pela madrasta, Maria Inês, também mulata, que se dedica ao menino e o matricula na escola pública, única que freqüentará o autodidata Machado de Assis.

De saúde frágil, epilético, gago, sabe-se pouco de sua infância e início da juventude. Criado no morro do Livramento, consta que ajudava a missa na igreja da Lampadosa. Com a morte do pai, em 1851, Maria Inês, à época morando em São Cristóvão, emprega-se como doceira num colégio do bairro, e Machadinho, como era chamado, torna-se vendedor de doces. No colégio tem contato com professores e alunos e é até provável que assistisse às aulas nas ocasiões em que não estava trabalhando.

Mesmo sem ter acesso a cursos regulares, empenhou-se em aprender. Consta que, em São Cristóvão, conheceu uma senhora francesa, proprietária de uma padaria, cujo forneiro lhe deu as primeiras lições de Francês. Contava, também, com a proteção da madrinha D. Maria José de Mendonça Barroso, viúva do Brigadeiro e Senador do Império Bento Barroso Pereira, proprietária da Quinta do Livramento, onde foram agregados seus pais.

Aos 16 anos, publica em 12-01-1855 seu primeiro trabalho literário, o poema "Ela", na revista Marmota Fluminense, de Francisco de Paula Brito. A Livraria Paula Brito acolhia novos talentos da época, tendo publicado o citado poema e feito de Machado de Assis seu colaborador efetivo.

Com 17 anos, consegue emprego como aprendiz de tipógrafo na Imprensa Nacional, e começa a escrever durante o tempo livre. Conhece o então diretor do órgão, Manuel Antônio de Almeida, autor de Memórias de um sargento de milícias, que se torna seu protetor.

Em 1858 volta à Livraria Paula Brito, como revisor e colaborador da Marmota, e ali integra-se à sociedade lítero-humorística Petalógica, fundada por Paula Brito. Lá constrói o seu círculo de amigos, do qual faziam parte Joaquim Manoel de Macedo, Manoel Antônio de Almeida, José de Alencar e Gonçalves Dias.

Começa a publicar obras românticas e, em 1859, era revisor e colaborava com o jornal Correio Mercantil. Em 1860, a convite de Quintino Bocaiúva, passa a fazer parte da redação do jornal Diário do Rio de Janeiro. Além desse, escrevia também para a revista O Espelho (como crítico teatral, inicialmente), A Semana Ilustrada(onde, além do nome, usava o pseudônimo de Dr. Semana) e Jornal das Famílias.

Seu primeiro livro foi impresso em 1861, com o título Queda que as mulheres têm para os tolos, onde aparece como tradutor. No ano de 1862 era censor teatral, cargo que não rendia qualquer remuneração, mas o possibilitava a ter acesso livre aos teatros. Nessa época, passa a colaborar em O Futuro, órgão sob a direção do irmão de sua futura esposa, Faustino Xavier de Novais.

Publica seu primeiro livro de poesias em 1864, sob o título de Crisálidas.

Em 1867, é nomeado ajudante do diretor de publicação do Diário Oficial.

Agosto de 1869 marca a data da morte de seu amigo Faustino Xavier de Novais, e, menos de três meses depois, em 12 de novembro de 1869, casa-se com Carolina Augusta Xavier de Novais.

Nessa época, o escritor era um típico homem de letras brasileiro bem sucedido, confortavelmente amparado por um cargo público e por um casamento feliz que durou 35 anos. D. Carolina, mulher culta, apresenta Machado aos clássicos portugueses e a vários autores da língua inglesa.

Sua união foi feliz, mas sem filhos. A morte de sua esposa, em 1904, é uma sentida perda, tendo o marido dedicado à falecida o soneto Carolina, que a celebrizou.

Seu primeiro romance, Ressurreição, foi publicado em 1872. Com a nomeação para o cargo de primeiro oficial da Secretaria de Estado do Ministério da Agricultura, Comércio e Obras Públicas, estabiliza-se na carreira burocrática que seria o seu principal meio de subsistência durante toda sua vida.

No O Globo de então (1874), jornal de Quintino Bocaiúva, começa a publicar em folhetins o romance A mão e a luva. Escreveu crônicas, contos, poesias e romances para as revistas O Cruzeiro, A Estação e Revista Brasileira.
Sua primeira peça teatral é encenada no Imperial Teatro Dom Pedro II em junho de 1880, escrita especialmente para a comemoração do tricentenário de Camões, em festividades programadas pelo Real Gabinete Português de Leitura.

Na Gazeta de Notícias, no período de 1881 a 1897, publica aquelas que foram consideradas suas melhores crônicas.
Em 1881, com a posse como ministro interino da Agricultura, Comércio Obras Públicas do poeta Pedro Luís Pereira de Sousa, Machado assume o cargo de oficial de gabinete.
Publica, nesse ano, um livro extremamente original , pouco convencional para o estilo da época: Memórias Póstumas de Brás Cubas -- que foi considerado, juntamente com O Mulato, de Aluísio de Azevedo, o marco do realismo na literatura brasileira.

Extraordinário contista, publica Papéis Avulsos em 1882, Histórias sem data (1884), Vária Histórias (1896), Páginas Recolhidas (1889), e Relíquias da casa velha (1906).
Torna-se diretor da Diretoria do Comércio no Ministério em que servia, no ano de 1889.

Grande amigo do escritor paraense José Veríssimo, que dirigia a Revista Brasileira, em sua redação promoviam reuniões os intelectuais que se identificaram com a idéia de Lúcio de Mendonça de criar uma Academia Brasileira de Letras. Machado desde o princípio apoiou a idéia e compareceu às reuniões preparatórias e, no dia 28 de janeiro de 1897, quando se instalou a Academia, foi eleito presidente da instituição, cargo que ocupou até sua morte, ocorrida no Rio de Janeiro em 29 de setembro de 1908. Sua oração fúnebre foi proferida pelo acadêmico Rui Barbosa.
É o fundador da cadeira nº. 23, e escolheu o nome de José de Alencar, seu grande amigo, para ser seu patrono.
Por sua importância, a Academia Brasileira de Letras passou a ser chamada de Casa de Machado de Assis.
Dizem os críticos que Machado era "urbano, aristocrata, cosmopolita, reservado e cínico, ignorou questões sociais como a independência do Brasil e a abolição da escravatura. Passou ao longe do nacionalismo, tendo ambientado suas histórias sempre no Rio, como se não houvesse outro lugar. ... A galeria de tipos e personagens que criou revela o autor como um mestre da observação psicológica. ... Sua obra divide-se em duas fases, uma romântica e outra parnasiano-realista, quando desenvolveu inconfundível estilo desiludido, sarcástico e amargo. O domínio da linguagem é sutil e o estilo é preciso, reticente. O humor pessimista e a complexidade do pensamento, além da desconfiança na razão (no seu sentido cartesiano e iluminista), fazem com que se afaste de seus contemporâneos."

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